Editorial

Afasta de mim este cálice! O líder encontra o ofício.

João Aurélio acordou com dores nas costas. Nada de novo... sentia-se há vários meses como se tivesse sido finalizado numa luta de MMA desde que assumira o cargo de Gerente de RH.

Acreditava que o tempo de casa foi o ponto principal para definirem sua promoção,  além da experiência e do domínio técnico das rotinas da área. Não sabia tudo, mas transitava por todos os processos. O problema era os colegas remanescentes... até recebera elogios e parabéns pela promoção, mas tinha a sensação de que ou ele ou eles não estavam confortáveis. Ele queria sentir-se como igual, mas não era mais, os colegas tentavam tratá-lo com naturalidade e respeito, mas soava falso. João chegava a questionar se teria tomado a melhor decisão ao aceitar a promoção, já que seu chefe deixou aberta a possibilidade de permanecer em seu antigo cargo.

Além das dores nas costas, tinha uma constante azia, principalmente se comia determinados alimentos condimentados: alho, pimenta e cebola eram seus inimigos, mas nos últimos dias até água parecia estufar-lhe.

Tinha uma tese para o seu mal quadro gástrico: mapeamento de processos e construção de indicadores na área de RH. Uma consultoria fora contratada para conduzir o projeto de  gestão da qualidade da empresa e este era o maior desafio, pressão e mais pressão, tempo apertado, nunca escrevera uma receita sequer de seus melhores assados e massas, agora teria que descrever todos os processos da área!  “Gastrite nervosa... é isso”.

Enquanto não era chefia, o estilo “cada um cuida do que é seu” e  “eu faço do meu jeito” sempre vingou na área de RH. Cada um em seu canto, se virando na sua ilha e tarefas. Ele mesmo achava aquilo bom: tocar o serviço no seu “tranco”: o que vai ser feito está em cima da mesa,  que não dá não sai da gaveta, o que não der para fazer, volta para lá. O serviço não está em dia? Tem algo atrasado? Indicador para quê? Lera Norton e Kaplan e achava muito legal o BSC (Balanced Score Card), mas no fundo achava muito trabalho para pouco benefício – muita arquitetura para pouca sombra. O fato é que a Diretoria estava investindo no projeto e teria que fazer. Foi quando a coisa se complicou...

Evandro era mais que um colega, entraram praticamente juntos na empresa, eram de fato  bons amigos, tinham aquela intimidade e parceria natural, praticamente sabendo sempre o que o outro pensava e sempre procuravam ficar juntos nos projetos e tarefas. Evandro tinha sido promovido para Analista de RH antes que João, na verdade ele sempre esteve um passo a frente na carreira: graduação, pós, cursos. Evandro era muito inteligente e competente, mas tinha um difícil  “hábito”: criticava os outros constantemente e, com exceção de João ( que poupava por amizade), não descartava ninguém de suas colocações duras e carregadas de malícia. Pior, por ser muito competente, seguidamente estava certo e isso só aumentava sua empáfia. Porém, não admitia seus erros ou abusos. E clara demonstração de arrogância, seguidamente, perdia o controle quando recebia qualquer questionamento sobre sua competência.

Por Evandro ser assim não foi escolhido para ser Gerente da área. João foi o escolhido. Evandro não comentou nada, resignou-se e passou a mandar seu currículo para outras empresas sem sucesso. As contas e o novo apartamento obrigaram-no a permanecer na empresa. João podia sentir o peso dos passos de amargura e a revolta de Evandro deslocando-se pelo escritório. Continuavam se encontrando em jantares de amigos, mas João sabia que os dias estavam contados para um enfrentamento.

Dores nas costas, azia e ansiedade. Esse era o quadro do dia: João deixará Evandro responsável por apresentar o relatório com o andamento da primeira fase de análise dos processos da área de RH. O tempo foi dado com folga, foi acordado com todos um prazo possível, foram programados encontros de trabalho e destinadas horas à execução individual das tarefas. Na reunião passada, Evandro não levantara a cabeça e rascunhava “qualquer coisa” enquanto todos participavam. Ele era o líder da tarefa e simplesmente se omitira. Dez minutos antes da reunião, Evandro pediu para suspender a reunião programada, pois o relatório não estaria pronto.

João chamou Evandro para conversar em separado. Mas antes tentou imaginar e planejar como deveria conduzir esta conversa. Estaria enfrentando sua primeira prova real de liderança. Nela definiria o destino de um competente membro da equipe, um amigo de longa data, que podia se tornar um entrave e um “inimigo” na própria tropa.

Deveria ser um líder servidor?
Um líder situacional?
Um líder laissez-faire?
Autocrático?
Democrático?
Transformacional?
Educador?
Coach?

Naquele momento sentiu que ainda não estava preparado e que não tinha método ou técnica para ser líder.

O que você faria? Como agir neste caso? Pense e decida. Afinal, ser líder é tomar decisões.

Uma boa semana.

Flávio Guerrico